Psiquiatria E Espiritualidade

Os transtornos psiquiátricos envolvem alterações patológicas da consciência, do pensamento, das emoções e do comportamento, que comprometem o desempenho social, com prejuízos na qualidade de vida.

psiquiatria e espiritualidade

A compreensão da fenomenologia dos transtornos mentais ainda é um grande desafio para a ciência. O modelo biológico em que o pensamento e toda a vida mental é resultado de reações químicas é insuficiente para explicar toda a fisiologia cerebral e o universo de fenômenos psíquicos que representa a vida.

Atualmente, inúmeros cientistas estão investigando os fenômenos que ocorrem para além da consciência ordinária que constituem numa variedade de estados alterados de consciência, como o transe hipnótico, a oração, a meditação, as experiências “fora do corpo”, as regressões a vidas passadas e diversos outros fenômenos.

Harold Koenig1, um dos mais importantes pesquisadores do século XX em espiritualidade e saúde humana, afirma que a crença religiosa tem grande influência nos transtornos psiquiátricos. Ela ajuda os profissionais da psiquiatria a compreenderem melhor seus pacientes, pois as crenças religiosas ou espirituais são utilizadas para lidar melhor com a doença mental.

Lukoff, Lu e Turner2 definem problemas religiosos como conflitos relacionados à fé e a doutrina e problemas espirituais como conflitos envolvendo a relação com questões transcendentais ou derivadas de práticas espirituais. Como exemplos de problemas espirituais, estes autores mencionam experiências místicas desencadeadas por práticas meditativas, experiências de quase morte, fenômenos de transe e possessão e emergências espirituais, como desconforto e incapacidade associados ao surgimento de experiências espirituais – mediunidade.

Em um estudo realizado na Índia (Raguram3 et al., 2002), pesquisadores realizaram uma análise de aspectos da crença espiritual e descreveram os efeitos de se permanecer no interior de um templo hindu. Construído sobre a sepultura de um mestre hindu venerado, o templo era conhecido localmente como um santuário curativo para pessoas com doença mental.

Pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde Mental e Neurociência em Bangalore estudaram 31 indivíduos que consecutivamente procuraram ajuda no templo. Os indivíduos residiram no templo por uma média de seis semanas. Os diagnósticos mentais incluíram esquizofrenia paranóide, transtorno delirante e transtorno bipolar-episódio maníaco.

A Brief Psychiatric Rating Scale – BPRS (escala de avaliação do estado mental) foi administrada na chegada ao templo e na saída dele. Entre a entrada e a saída do templo, a BPRS reduziu em 19% sem uso de medicação. Os pesquisadores também realizaram entrevistas com os familiares, que relataram melhora nas condições dos seus parentes durante o tempo em que ficaram no templo.

Os investigadores concluíram que “a redução observada de quase 20% na BPRS representa nível de melhora clínica que se assemelha àquela alcançada por muitos agentes psicotrópicos, inclusive os novos agentes atípicos”. Eles deduziram que as melhoras ocorridas com as intervenções espirituais pudessem explicar os melhores resultados para esquizofrenia observados em sociedades tradicionais.

Outro fenômeno que intriga os neurocientistas é o que ficou conhecido no meio científico como EQM, Experiência de Quase-Morte. Quando algumas pessoas vivenciam um estado próximo da morte, elas vivenciam uma experiência profunda de transcender o mundo físico, o que frequentemente as conduz a uma transformação espiritual.

Estas EQMs são relevantes para os clínicos pois produzem mudanças nas crenças, nas atitudes e nos valores. Podem ser confundidas com os estados psicopatológicos, embora tenham consequências diferentes, necessitando de terapêuticas diferentes. As EQMs também podem ampliar a compreensão em relação ao fenômeno da consciência.

Em outras palavras, as EQMs, investigadas por Lukoff e posteriormente por Greyson, em situações de morte iminente (com ou sem sofrimento cerebral), apresentam evidências que a consciência e a memória se mantém preservadas sem o funcionamento cerebral suficiente. Relatos de pacientes sobreviventes que tiveram lembranças de uma experiência fora do corpo indicam que o pensamento e a consciência se apresentam como independentes da atividade cerebral orgânica.

Outro estudo que envolve instâncias profundas do universo psíquico humano é conhecido como Oração Intercessória. Em 1988, Randolph Byrd5 chocou o mundo com os resultados de um estudo que ele conduziu sobre os efeitos da oração em pacientes cardíacos. Byrd estudou 393 pacientes internados em uma unidade de tratamento cardíaco do San Francisco General Hospital, na Califórnia, EUA.

Os pacientes eram “estatisticamente semelhantes”, o que significa que suas condições eram todas similares. Esses pacientes foram divididos em dois grupos: os que receberam oração intercessória e os que não receberam. Nem o médico, nem o paciente sabiam quem estava em qual grupo.

Por um período de dez meses, entidades cristãs rezaram apenas para um dos grupos. As pessoas que foram convidadas a rezar conheciam somente o nome dos doentes, mas nunca os encontraram pessoalmente. Os pacientes sabiam da experiência de que estavam participando, mas não sabiam em qual grupo tinham sido colocados. Também o pessoal que os assistia, embora conhecendo a experiência, não sabia a qual dos dois grupos os doentes pertenciam.

Dessa pesquisa e análise, resultou que os pacientes que foram objetos da oração dos fiéis desconhecidos, confrontados com os pacientes do segundo grupo, tiveram uma melhor reação à doença, seu estado físico era melhor que o dos outros, estavam mais animados e precisaram de menos remédios.

Pesquisa semelhante foi reproduzida no Brasil pelo Dr. Carlos Eduardo Tosta6, PhD, professor titular de Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília. Ele coordenou um projeto de pesquisa demonstrando que um dos principais mecanismos de defesa do organismo – a fagocitose – pode ter a função estabilizada com orações feitas à distância.

Tosta afirma: “Quando interpretamos os dados, observamos que a prece teve o papel de induzir equilíbrio e isso faz sentido, já que em medicina equilíbrio é sinônimo de saúde”. A pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Imunologia Celular da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, com a participação ativa de mais de 50 estudantes de medicina durante o período de 2000 a 2003. Tosta afirma: “A prece atua sobre indivíduos sadios, influenciando o sistema imunológico”.

Em pesquisa realizada na Suécia, país com grande tradição científica, pesquisadores estudaram 88 pacientes com transtornos psicóticos com início na adolescência, sendo que a maioria tinha esquizofrenia (Jarbin e von Knorring7, 2004). Os indivíduos foram seguidos por mais de 10 anos e, durante esse período, 25% deles tentaram suicídio.

O envolvimento religioso estava entre os fatores que induziram menos tentativas de suicídio, com boas relações de família e melhor saúde. Na realidade, quando os pesquisadores controlaram a ansiedade e depressão, a única variável que determinou menos tentativas de suicídio foi a satisfação com a crença religiosa.

Jeziel da Silva Ramos
Médico psiquiatra, Presidente da Casa de Eurípedes – Goiânia
jezielsramos@hotmail.com

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